A importância das rotinas no regresso à escola
- Plato Academia do Pensar
- 24 de ago.
- 5 min de leitura
O regresso à escola aproxima-se e, com ele, começam a surgir as preocupações de muitas famílias: “Como é que vamos voltar aos horários?”, “Ele está completamente habituado a deitar-se tarde…”, “Como vamos conseguir organizar as manhãs?”
Depois de semanas com dias mais livres, horários flexíveis, viagens, brincadeiras e muito tempo em família, é natural que a mudança para a rotina escolar não aconteça de um dia para o outro, talvez seja precisamente aqui que esteja o segredo: não precisamos de esperar pelo primeiro dia de aulas para voltar à rotina, podemos começar antes, de forma gradual.
Quando falamos em rotinas é fácil imaginar horários preenchidos, listas de tarefas e regras para cumprir, mas uma rotina saudável não precisa de ser rígida.
Para uma criança, saber mais ou menos o que vai acontecer ao longo do dia irá transmitir segurança, previsibilidade e tranquilidade. Quando a criança conhece a sequência das suas atividades, gasta menos energia a decidir constantemente “o que vem a seguir?” e pode tornar-se mais autónoma.
Uma rotina não serve para controlar a criança, serve sim, para lhe dar estrutura suficiente para que, progressivamente, consiga controlar o seu próprio dia.
O sono é o primeiro passo
Durante as férias, é normal que os horários se tenham alterado. Deitar mais tarde, acordar mais tarde e aproveitar a noite faz parte do descanso.
O problema surge quando tentamos mudar tudo de repente.
Em vez de esperar pelo primeiro dia de aulas para voltar aos horários habituais, podemos começar a aproximá-los gradualmente. Antecipar um pouco a hora de deitar e de acordar ao longo dos dias pode tornar a transição muito mais tranquila.
E não é apenas o número de horas de sono que importa. A qualidade e a regularidade do descanso têm um impacto enorme na capacidade de atenção, memória, aprendizagem e regulação emocional.
Uma criança cansada terá muito mais dificuldade em enfrentar as exigências de um dia escolar.
E as manhãs?
Quantas famílias começam o dia com:
“Veste-te!”
“Já lavaste os dentes?”
“Anda, vamos chegar atrasados!”
“Onde estão os teus ténis?”
A manhã pode transformar-se rapidamente numa sucessão de ordens e correria.
Uma boa rotina pode ajudar a mudar completamente este cenário.
Experimentem definir com a criança uma sequência simples para a manhã:
acordar → vestir → higiene → pequeno-almoço → mochila → sair.
Não é preciso criar um quadro complicado. O importante é que a criança saiba o que acontece e, sobretudo, que tenha oportunidade de fazer algumas destas tarefas sozinha.
Porque uma rotina também é uma ferramenta de autonomia. Preparar à noite para facilitar a manhã.
Uma das pequenas mudanças que pode fazer uma grande diferença é preparar algumas coisas no dia anterior.
Roupa escolhida, mochila organizada, materiais preparados e, sempre que possível, alguns pormenores do pequeno-almoço pensados antecipadamente.
Parece pouco, mas quando retiramos pequenas decisões da manhã, reduzimos também a probabilidade de conflitos e esquecimentos.
E podemos transformar este momento numa oportunidade para a criança assumir responsabilidade:
“O que precisas de preparar para amanhã?”
Em vez de:
“Deixa que eu preparo tudo.”
A diferença parece pequena, mas pedagogicamente é enorme.
E os ecrãs?
As férias também significam, muitas vezes, mais tempo de ecrã.
Não precisamos de transformar o regresso à escola numa batalha contra o telemóvel, a consola ou a televisão.
Podemos, isso sim, começar a recuperar limites e horários mais próximos dos dias escolares.
Mais importante do que simplesmente dizer “não podes” é ajudar a criança a perceber quando, durante quanto tempo e para o que pode utilizar os dispositivos.
E, sobretudo, criar momentos do dia em que os ecrãs deixam de fazer parte da rotina — particularmente na preparação para o sono.
Estudar antes de começar?
Não é necessário transformar os últimos dias de férias numa corrida para recuperar matéria.
O objetivo não deve ser encher os dias de fichas e exercícios.
Podemos começar de uma forma muito mais leve: alguns minutos de leitura, um jogo de palavras, uma pequena atividade de matemática, organizar os materiais escolares ou simplesmente conversar sobre aquilo que a criança se lembra do ano anterior.
O cérebro também precisa de tempo para fazer a transição entre o modo férias e o modo escola.
Mais importante do que estudar muito antes das aulas é recuperar progressivamente hábitos que favorecem a aprendizagem.
Não nos esqueçamos da parte emocional
Por vezes, quando pensamos no regresso à escola, preocupamo-nos sobretudo com mochilas, livros, horários e material.
Mas há uma dimensão muito importante que não podemos esquecer: como se sente a criança perante o regresso?
Há crianças que estão ansiosas por voltar. Outras preferiam continuar de férias. Algumas estão preocupadas com um novo professor, uma nova turma, dificuldades numa disciplina ou simplesmente com a ideia de deixar para trás os dias de liberdade.
Por isso, vale a pena conversar. Não precisamos de fazer um interrogatório.
Podemos simplesmente perguntar:
“O que estás mais ansioso por voltar a fazer?”
“Há alguma coisa que te esteja a preocupar?”
“O que achas que vai ser mais difícil?”
E, sobretudo, ouvir.
Nem sempre precisamos de resolver imediatamente aquilo que a criança sente. Às vezes, ser ouvida já é uma forma de se sentir mais segura.
Construir a rotina com a criança
Uma rotina imposta pode ser cumprida.
Uma rotina construída em conjunto pode ser compreendida.
Dependendo da idade, podemos envolver a criança na definição de alguns horários e tarefas. Podemos perguntar o que acha que precisa de preparar, quais são as tarefas que consegue fazer sozinha e onde poderá precisar de ajuda.
Esta participação dá-lhe algo muito importante: sentido de responsabilidade e de pertença relativamente à própria rotina.
Porque o objetivo não é termos uma criança que cumpre ordens. É termos, progressivamente, uma criança que sabe organizar-se. Começar devagar também é começar.
Não precisamos de mudar tudo hoje. Podemos escolher uma ou duas coisas para começar: aproximar o horário de sono, reduzir um pouco os ecrãs, recuperar o horário das refeições ou começar a preparar a mochila. Depois, acrescentamos outras.
O regresso à escola não precisa de ser uma rutura brusca com as férias. Pode ser uma transição gradual. E talvez esta seja uma das melhores mensagens que podemos transmitir às nossas crianças: não precisamos de fazer tudo perfeito para estarmos preparados, precisamos apenas de começar.
Uma pequena proposta para as famílias
Nos últimos dias antes do regresso, experimentem criar uma pequena “ponte” entre as férias e a escola:
-Recuperar progressivamente os horários de sono;
-Aproximar os horários de acordar dos dias escolares;
-Reorganizar os momentos de ecrã;
-Preparar materiais e mochila com antecedência;
-Recuperar pequenos momentos de leitura;
-Conversar sobre expectativas e preocupações;
-Reservar tempo para brincar e estar em família.
Porque preparar o regresso à escola também é cuidar da criança antes de lhe pedirmos que volte a aprender.
Na PLATO – Academia do Pensar, acreditamos que educar não é apenas ensinar conteúdos. É também ajudar cada criança a desenvolver ferramentas para pensar, organizar-se, ganhar autonomia e compreender melhor aquilo que sente.
E as rotinas, quando construídas com equilíbrio e intenção, podem ser uma dessas ferramentas.
Um novo ano letivo não precisa de começar com pressa, pode começar com estrutura, tranquilidade e confiança.
E, acima de tudo, pode começar com uma criança que sabe que não precisa de fazer tudo sozinha — mas que, pouco a pouco, é capaz de fazer cada vez mais por si.


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